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Lisa, a mãe do Macintosh

escrito por Mario Amaya em 22 de junho de 2009

O Lisa é um dos produtos mais incompreendidos da história da Apple. Afinal, tudo o que, atualmente, ouve-se sobre ele é, invariavelmente, que foi um “fracasso”. Em vez disso, deveríamos reconhecer que, do ponto de vista da tecnologia, o Lisa foi um enorme triunfo.

O projeto surgiu em 1978, durante a explosão de vendas do Apple II, que deu à companhia a liderança do mercado que ela mesma tinha acabado de estabelecer. Os engenheiros da época já tinham noção de que um computador baseado em uma interface visual seria um desenvolvimento natural e inexorável do computador pessoal. Assim, eles trabalharam para que a Apple pudesse revolucionar o mercado pela segunda vez seguida e comercializar o primeiro computador pessoal com interface visual.

Um trabalho desse tipo, porém mais avançado, na época era do centro de pesquisas PARC, da Xerox, que Steve Jobs e companhia conheceram em 1980. No ano seguinte, a Xerox lançou o Star, um avançado computador para escritórios que incorporava as melhores invenções do PARC, incluindo a interface gráfica de alta resolução com ícones, menus e janelas, mouse, programação orientada a objeto, visualização realística na tela de imagens e textos (WYSIWYG), impressão a laser e rede de alta velocidade Ethernet. Enfim, o Star já era um rascunho muito completo daquilo que conhecemos hoje como computador pessoal. Isso tudo na mesma época em que a IBM lançava o modesto e primitivo IBM-PC.

O Apple Lisa foi inspirado no Xerox Star, mas custava bem menos. Seu grande problema era que US$ 10 mil (algo em torno de R$ 50 mil, em valores atualizados) ainda era dinheiro demais para investir em equipamento para uma secretária executiva. Ainda assim, em sua época, o Lisa foi bem difundido entre as empresas médias e grandes dos EUA, graças à sua capacidade de gerar documentos visualmente sofisticados para a época.

O Macintosh usava o mesmo processador (Motorola 68000) a uma velocidade superior (8 MHz, contra 5 MHz do Lisa), mas tinha menos memória (128 KB versus 1 MB), porque ela era extremamente cara em 1984. O Mac também não vinha com HD; o Lisa podia usar um HD interno de 5 MB ou 10 MB, mais um ou dois HDs externos. O Mac só rodava um aplicativo de cada vez; o Lisa já era multitarefa. Por outro lado, a indústria de aplicativos de terceiros para Mac estendeu o poder atrativo do pequenino computador, enquanto o Lisa só rodava os sete programas de escritório que vinham pré-instalados – LisaWrite, LisaCalc, LisaDraw, LisaGraph, LisaProject, LisaList e LisaTerminal – ou uma versão de Unix. Em sua terceira e última versão, ingloriosamente denominada Macintosh XL, o Lisa também podia rodar programas de Mac, com o auxílio do emulador MacWorks.

Houve duas gerações de hardware do Lisa. A primeira, de janeiro de 1983, trazia o painel frontal plano com um logo “Lisa” caligráfico e dois drives de disquete de 5 1/4”. A segunda geração, que saiu um ano depois, juntamente com o Macintosh, veio remodelada pela recém-criada estilização conhecida internamente na Apple por SnowWhite: painel frontal com o símbolo da maçã arco-íris isolado dentro de um rebaixo (como seria em todos os produtos Apple durante os 14 anos seguintes) e a frente canelada com uma abertura única para um drive de disquete de 3 1/2”, igual ao do Mac. A Apple também vendia um kit para adaptar Lisas da primeira geração, que incluía o novo drive de disquete e o painel frontal.

Por dentro, quatro placas de circuitos digitais eram encaixadas de pé, via slots, em uma placa integradora, acessível pela traseira (uma coisa que quase ninguém sabe é que essas placas exibem fios adicionais soldados à mão e outras gambiarras que nunca veríamos num produto de informática atual). A CPU tem o volume aproximado de dois Macs originais lado a lado. O teclado e o mouse também são bem volumosos.

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Usando um Lisa

Abra seu iTunes, vá para a Store e procure em Video Podcasts por “Alfred.TV”. Dentro desse canal, baixe o vídeo chamado “Apple LISA Demo”. Ali você pode ver um autêntico Lisa sendo usado em 1984, com uma explicação detalhada do software. Duas coisas saltam à vista:

1) Os programas eram surpreendentemente sofisticados e a interface é perfeitamente reconhecível no Macintosh, em todos os seus detalhes. Até mesmo o efeito de “zoom” ao abrir janelas já existe, assim como as janelas com uma sombrinha, sugerindo solidez física.

2) O computador era muito, muito, MUITO lento! O boot levava três minutos e todos os programas iniciavam mostrando a mensagem “Just a moment, please” durante uns dez segundos. Temos que dar um desconto para o fato de o Lisa fazer tudo diretamente no processador, sem a ajuda de coisas como os chips gráficos, que realizam o trabalho pesado nos computadores atuais. Além da velocidade de operação maior, o Mac contava com um software de sistema muito mais simples; mesmo assim, também não podia ser considerado veloz.

Uma coisa notável no Lisa é a resolução de tela, elevada até mesmo para os padrões atuais, embora baseada em pixels retangulares, e não em pixels quadrados, como os dos Macs e PCs de hoje. Por isso, muitas capturas de telas que vemos na internet parecem estranhamente achatadas. O display era em preto-e-branco.

Uma diferença fundamental entre a maneira de usar do Lisa e a do Macintosh – e talvez a mais importante de todas – é que você não abria os programas e para criar novos documentos dentro deles. Era preciso dar um duplo clique em um ícone de Stationery – um “suprimento genérico infinito” de um tipo de documento – e este fazia o software abrir com um documento novo em branco. Essa abordagem “documentocêntrica” foi repetida na década seguinte pelo malfadado OpenDoc e ainda resiste, de forma vestigial, no Windows, por onde é possível criar documentos novos diretamente do desktop, via menu contextual. No Mac OS, o conceito de Stationery ainda está presente, mas escondido.

O Macintosh não foi um derivado direto do Lisa, mas o Lisa foi usado no desenvolvimento de softwares para Mac, bem como diversos conceitos técnicos foram compartilhados entre os dois sistemas. Inicialmente, o Mac era o projeto “clandestino” que Steve Jobs adotou quando não pôde dirigir a criação do Lisa. Depois, ele evoluiu até prevalecer definitivamente na história. Mas não teria nem mesmo surgido na forma como o conhecemos se não fosse pela enorme experiência ganha pela Apple ao criar o Lisa.

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E aí? O nome Lisa é o mesmo da primeira filha de Steve Jobs. Mas uma filha de um engenheiro do projeto na Apple também tinha esse nome, e Steve Jobs nunca chegou a ter muito a ver com o computador.

Mario Amaya, agradece o doador não-identificado com o qual obteve, em 2007, um Lisa 2 para incrementar seu museu privado de Macs.

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